O mercado imobiliário brasileiro entrou em 2026 com o maior índice de intenção de compra da série histórica, segundo levantamento da Brain Inteligência Estratégica, atingindo 49% das famílias pesquisadas. O dado por si só já seria notícia. Mas o mais relevante está na composição desse número: geração Z e millennials lideram essa intenção, com 61% e 51% respectivamente, buscando o que o próprio setor vem chamando de upgrade residencial guiado por funcionalidade, não por status ou tamanho.
Isso muda a pergunta que qualquer material de marketing imobiliário deveria estar respondendo. Não é mais sobre convencer uma família de perfil já definido a comprar. É sobre entender um comprador mais jovem, que decide sozinho ou em parceria, e que carrega critérios diferentes dos que moldaram o setor nas últimas duas décadas.
A procura por apartamentos compactos e inteligentes, na faixa de estúdios e uma vaga de dormitório, lidera a demanda entre esse público. É um deslocamento claro em relação à lógica anterior, que media valor imobiliário quase que exclusivamente por metragem. O critério mudou de quanto espaço para que espaço faz por mim. Luz natural abundante, contato com áreas verdes e amenidades voltadas à saúde física e mental aparecem como prioridades tanto para millennials quanto para a geração Z, à frente de itens que antes eram tratados como diferencial de luxo.
Apesar da intenção recorde, 36% desse público ainda não iniciou uma busca efetiva por imóvel. O motivo principal não é falta de desejo, é receio de converter patrimônio líquido em um ativo com baixa liquidez, sujeito a taxas de condomínio voláteis e custos de manutenção difíceis de prever no médio prazo. É uma geração que cresceu observando a liquidez quase instantânea de investimentos financeiros e enxerga o imóvel, por comparação, como um ativo mais rígido e mais arriscado de administrar do que os pais consideravam.
Esse receio não é irracional. É uma leitura de risco mais sofisticada do que o discurso tradicional do sonho da casa própria costuma admitir.
Se a barreira real é percepção de risco e não desejo, a resposta do mercado precisa mudar de registro. Menos imagem aspiracional de família feliz, mais transparência concreta: histórico real de reajuste de taxa condominial, cenários de valorização com dados verificáveis, e clareza sobre opções de saída caso o comprador precise revender ou alugar o imóvel no futuro. A conversa de venda que funciona com esse público se parece menos com sonho e mais com due diligence, entender se aquele ativo realmente se sustenta financeiramente ao longo do tempo.
O que está em curso não é apenas uma mudança de perfil de comprador. É uma renegociação silenciosa do que significa possuir um imóvel, menos marco simbólico de vida adulta, mais ativo funcional que precisa provar seu valor com números, não com imagem.
FONTES CONSULTADAS
Tribuna do Sertão — Millennials e Geração Z lideram intenção de compra recorde no mercado imobiliário em 2026